EM ARQUITETURA DE SOLUÇÕES PARA TIC: “NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO”?

EM ARQUITETURA DE SOLUÇÕES PARA TIC NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO-01

por Esmeraldino Junior

Navigare necesse; vivere non est necesse.

Pompeu

A lendária frase acima, em latim, é atribuída pelo historiador Plutarco ao general e político romano Pompeu (106-48 a.C.), que a teria dito para encorajar marinheiros amedrontados que se recusavam a navegar e enfrentar os perigos dos mares[1]. Desde então, a expressão “Navegar é preciso, viver não é preciso” têm sido amplamente recuperada e adaptada para os mais diversos cenários, motivando reflexões inclusive sobre atividades cotidianas.

A máxima de Pompeu permite interpretações. À primeira vista, parece indicar que, para o romano, a navegação seria naquele momento até mais importante do que o ato de viver. Porém, à medida que “preciso” seja entendido não a partir do verbo “precisar” (ter necessidade; carecer [2]), mas sim do adjetivo “preciso” (sinônimo de algo realizado com exatidão ou rigor; claro, evidente[3]), a expressão gera novas considerações: Enquanto a navegação é uma ciência exata, viver é impreciso, inexato, por vezes ambíguo e até mesmo contraditório.

Trazendo-a para a nossa realidade, também as melhores práticas em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) nos demonstram que “navegar é preciso, viver não é preciso”. Se associarmos “navegar” ao trabalho de planejar ofertas (como projetos ou contratos) e “viver” com o conjunto das atividades humanas (administrativas, técnicas e operacionais) comprometidas na entrega dessas mesmas soluções ofertadas ao cliente – que, por sua vez, podem envolver contratempos, dificuldades, riscos e ousadia – talvez estejamos bem próximos da realidade que nos aguarda em nosso dia-a-dia profissional.  Neste caso, planejar é preciso, já entregar pode não ser preciso. Ainda assim, é possível (e até necessário) se preparar para as adversidades.

E se o seu projeto começar a navegar por soluções que geram transformação digital, migrando de ofertas de recursos de infraestrutura para facilidades de computação em nuvem, então quais frases seriam as mais adequadas para este momento? Quais se encaixariam dentro de sua atividade principal?

Como a célebre expressão de Pompeu não foi relacionada apenas à área de tecnologia, ao longo dos tempos, diversas pessoas, de diferentes áreas do conhecimento, também expressaram seus pontos de vista sobre o tema. Pensando nisso, relembre algumas dessas passagens e inspire-se:

Fernando Pessoa, “Palavras de Pórtico”[4]:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

“Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar como eu sou:

“Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.

Não conto gozar a minha vida, nem em gozá-la penso.

Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser

o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;

ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue

o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

FUVEST/1997[5]:

“‘Navegar é preciso, viver não é preciso’. Esta frase de antigos navegadores portugueses, retomada por Fernando Pessoa, por Caetano Veloso e sabe-se por quantos mais citadores ou reinventores, ganha sua última versão no âmbito da Informática, em que o termo navegar adquire outro e preciso sentido. Na nova acepção, em tempos de Internet[6], o lema parece mais afirmativo do que nunca. Os olhos que hoje vagueiam pela tela iluminada do monitor já não precisam nem de velas, nem de ventos, nem de fados: da vida só querem o cantinho e um quarto de onde possa o mundo flutuar em mares de virtualidades nunca dantes navegados.”.

João Kon, “Planejar é preciso, criar não é preciso, porém…”[7]:

Segundo João Kon, “A experiência de longa data de atuação na área de criatividade, através de seminários, palestras, assessoria a empresas, etc. – tornou  possível a redação de artigos que abordam diferentes facetas da criatividade. Uma nova questão a ser agora abordada, fonte de alguma controvérsia, principalmente na área de Recursos Humanos, diz respeito à relação entre Criatividade e Planejamento.”. O autor informa que enfatiza em algumas palestras, que incluem especialistas e alunos de Administração Pública que, “para atingir determinados objetivos, é necessário que se faça um planejamento adequado, embora provavelmente seu desenvolvimento não acontecerá conforme o previsto”. Por isso, seria imprescindível o planejamento. Afinal, segundo ele, “É a maneira pela qual é possível intervir em momentos adequados quando o plano sofre desvios, de modo a corrigir o rumo ou mesmo mudar os objetivos. Planejar é fundamental porque com planejamento são definidas metas, caminhos e um ponto de chegada. Conforme o conhecido ditado popular chinês: ‘não há ventos favoráveis para quem não sabe aonde quer chegar’”.

Conforme João: “(…) planejamento e criatividade não são excludentes. Muito pelo contrário, constituem um somatório de valores construindo juntos novas alternativas, mesmo correndo altos riscos. Assim, inspirado em Pompeu e Fernando Pessoa, bem como na ambiguidade do sentido da palavra ‘preciso’, a nova proposta é: Planejar é preciso, criar não é preciso, porém é preciso criar. ”.

Maria de Lourdes Netto Simões, “Viajar é preciso? ”[8]:

“Lembrando navegadores antigos, disse Fernando Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso. E retomou a frase gloriosa, pensando na sua própria razão de viver, daí ter afirmado: viver não é importante, o importante é criar (pórtico de Mensagem). E a sua obra aí está para testemunhar a sua certeza. Valendo-me da ideia, eu pergunto: viajar é preciso? Distanciada daqueles navegadores antigos, pelo tempo e pela tecnologia, mas próxima deles pela curiosidade sobre o desconhecido, sobre o conhecimento do outro, sobre a surpresa e o encantamento da viagem, reponho a assertiva, reformulando a sua segunda parte, pela afirmativa: Viver é preciso! Então, à luz do pensar antigo, poderia raciocinar: se viver implica conhecer, conhecer implica navegar.”.

Elimar Silva Melo, “Navegar é preciso, viver não é preciso”:

Elimar Silva Melo acredita que todos nós somos testemunhas de que, embora filhos de uma mesma família sejam criados (“navegar é preciso…”) e educados da mesma maneira, até na mesma escola, com as mesmas possibilidades e mesma atenção (ou ainda desatenção) dos pais, o resultado pessoal e profissional destes pode ser completamente diferente. Segundo ele, isso ocorre porque “viver não é preciso” e não há garantias nem fórmulas de sucesso. Sabemos, por exemplo, que se não tomamos determinados cuidados com a saúde, critérios na educação, até escolha da escola e nos atentamos para as companhias de nossos filhos, a sua integridade física e moral pode estar ameaçada, agora ou mesmo no futuro. Assim sendo, o que podemos fazer é prevenir e prepará-los, ou seja, educá-los. Afinal, educar é preparar as novas gerações para os desafios que a vida impõe, com olhos nas mudanças e alternativas que eles, possivelmente, enfrentarão no futuro.

[1] Disponível em: <http://www.uc.pt/navegar/>. Acesso em: mai. 2017.

[2] Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=precisar>. Acesso em: mai. 2017.

[3] Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=preciso>. Acesso em: mai. 2017.

[4] Nota publicada pela primeira vez na primeira edição do volume “Fernando Pessoa – Obra Poética”. PESSOA, Fernando. Obra poética. Organização, Introdução e Notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1965.

[5] Disponível em: <http://www.fuvest.br/vest1997/provas/prv1fk14.stm>. Acesso em: mai. 2017.

[6] No Brasil, o acesso público à Internet só se deu a partir de maio de 1995.

[7] Disponível em: <http://www.facilita.com.br/facartigo_planejar.htm>. Acesso em: mai. 2017.

[8] Disponível em: < http://www.uesc.br/icer/artigos/viajarepreciso.pdf>. Acesso em: mai. 2017.